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Miss Messy

Miss Messy

Em fúria com o Serviço Nacional de Saúde

 

Até alguns dias atrás, estava convicta de que a única diferença que separava hospitais públicos de hospitais privados, eram as comodidades. Num público esperamos em cadeiras de plástico até ficarmos com as nádegas quadradas e no privado temos uma espécie de "sofázinhos" confortáveis. Isto para não falar que a televisão no público muitas vezes nem existe ou está avariada, ao invés que no privado somos presenteados com um plasma à maneira e ainda temos ao nosso dispor várias revistas e jornais para que possamos tornar a nossa espera numa experiência mais agradável.

Ainda assim, sempre optei por ir ao público porque - até à pouco tempo - as minhas experiências tinham sido boas...ou razoáveis vá e por isso nunca senti necessidade de fazer um seguro que me desse um passaporte directo aos hospitais da elite...até à ultima quinta-feira ter estoirado a bomba com o serviço nacional de saúde.

 

Eram 14h da tarde, estava no escritório a contorcer-me cheia de dores, num pranto sem fim, cheia de vómitos e tudo mais. Estava com uma infecção urinária daquelas mesmo agrestes. Como a coisa já não ia ao sitio com muita águinha e urispas, decidi deslocar-me à urgência mais próxima: Maternidade Alfredo da Costa, convicta de que, uma vez que são especialistas em ginecologia, me resolveriam o problema rapidinho. Ao chegar, tinha cerca de 12 pessoas na sala de urgência, coisa pouca, pensei eu. Depois de feita a triagem, e de uma espera de 2:50h agonizada pelas dores horrorosas da maldita infecção urinária e de 1234 idas à casa de banho para fazer meia dúzia de pinginhas de xixi, lá me chamaram. Entro no consultório e tal é meu espanto ao ver 3 estagiários à minha espera ansiosos por aplicar em mim toda a sua nova sabedoria adquirida ao longo do curso de Medicina. Perguntaram-me o que sentia, ao mesmo tempo que desfolhavam um livro para tentar perceber ao certo a origem da doença que me levara ali. Questionavam-se uns aos outros sobre que mais exames poderiam pedir para além de uma análise à urina. A esta altura já me começava a sentir um pouco incomodada... Quer dizer, estava literalmente a morrer de dores e já tinha esperado mais que tempo suficiente pela consulta de urgência, queria era ser consultada por uma médica formada (ou pelo menos, ter a presença de alguma ali por perto). Lá acabaram por chamar uma médica que respondeu logo muito prontamente "peçam apenas para ser feita uma análise básica à urina, o resto vai demorar muito tempo e hoje não temos tempo para isso, depois a senhora dirige-se a um urologista e faz os exames que o especialista entender". Ok... toma lá e vai buscar. Isto é tipo MacDonalds, não há cá tempo a perder porque a espera é grande. Está certo.

Lá fui fazer as análises à urina que supostamente estavam prontas em meia hora...e até estavam - foi essa a indicação que me deram - mas depois de prontas esperei mais cinco horas até ser chamada de novo. Estava tão desesperava que já tinha tonturas e começava a fazer febre.

Expliquei os meus sintomas diversas vezes aos enfermeiros na esperança de que alguma alma caridosa conseguisse apressar a coisa, mas não, disseram-me antes que os médicos estavam na hora do jantar e da ronda pelos quartos e por isso tinha de aguardar.

Depois de quase oito horas ali nas urgências, acabei por ser chamada. Segundo a médica, estava com uma infecção urinária gravíssima. Disseram-me que as dores e a má disposição não iriam terminar no dia seguinte e por isso disseram-me para ficar em casa, ao que respondi "muito bem, então preciso de um comprovativo de como amanhã não posso trabalhar, por favor" e ouço a seguinte resposta " lamento imenso, isso só com o médico de família, tem 5 dias para lhe pedir uma baixa médica de um dia." Desculpem????? Então já não basta ter de esperar horas e horas no hospital a morrer de dores e agora vou ter de esperar horas e horas no Centro de Saúde para ter um papel que demora 30 segundos a ser impresso a dizer que não posso ir trabalhar?

 

Como o meu horário de trabalho é muito preenchido, nunca consigo ir ao centro de saúde e muito honestamente também me custa ter de faltar mais um dia ao trabalho para ter de esperar horas e horas num centro hospitalar para pedir um simples papel. Decidi então que no dia seguinte iria ligar para o Centro para tentar saber o que fazer nesta situação. E assim foi, no dia seguinte, por volta das 9H e pouco da manhã, ligo para o meu Centro de Saúde, pergunto se a minha médica de família se encontra e explico que estive no dia anterior no hospital, que tenho uma carta do médico da Alfredo da Costa e que apenas preciso de uma baixa médica de um dia. Foi me dito que as consultas de urgência - sim porque para uma baixa médica também tenho de tirar a senha de consulta de urgência - só funcionam até às 10H da manhã mas uma vez que estava cheia de dores e era só uma folha, me dirigisse ao centro de saúde o mais depressa possível que falariam com a Dra. e a coisa seria rápida. Assim o fiz. Em menos de dez minutos estava batida na recepção do Centro de Saúde. Falei com as recepcionistas e curiosamente NINGUÉMMMMM me tinha dito nada daquilo ao telefone e portanto a conversa já era outra. Tinha de tirar a senha e esperar como todos os outros. Tendo em conta que estavam pessoas ali à espera desde as 7 da manhã aos berros por estarem fartas de ali estar comecei a temer o pior. Voltei a implorar que falassem com a médica, precisava só de 1 minuto do seu tempo porque não aguentava com dores mas não me podia apresentar ao trabalho sem uma justificação. Nesse momento posso-vos garantir que uma das recepcionistas olhou para mim, começou-se a rir e disse alto e a bom som "Lamento muito, mas o problema não é meu, não tenho nada a ver com isso, ou espera ou vai-se embora". Como é que é possível que aquele ser humano me veja agarrada à barriga com dores e ainda tenha o desplante de me dizer uma coisa daquelas? Compreendo que as coisas possam não estar nas mãos dela, mas não é assim que se tratam as pessoas. Esperei mais de duas horas sentada até chegar ao meu limite, levantar-me do banco, entrar pelo corredor dentro e ver a minha médica no meio do corredor a falar com uma outra médica aos risinhos como se estivesse na pausa do almoço. Aí entendi a minha espera e a de todos os outros. De facto já não chamavam ninguém à imenso tempo e naquele momento entendi o porquê. Eu não sou muito dada a escândalos nem a peixaradas mas apeteceu-me começar a vociferar ali mesmo. Em vez disso, com os nervos, comecei a chorar, fui falar com uma enfermeira que foi cinco estrelas comigo e que, vendo o meu estado, tentou com que fosse atendida o mais rapidamente possível. Ainda assim, consegui-a ouvir a minha médica dizer-lhe "as coisas não são assim, ela vai ter de esperar" mas a enfermeira insistiu e lá consegui a baixa médica.

 

Conclusão: Afinal há mais diferenças que separam os públicos dos privados para além das comodidades. Para além do tempo de espera, a forma de como nos tratam também é outra. Esperei horas e horas por consultas, esperneei por todos os lados cheia de dores e febre e tanto na Alfredo da Costa como no Centro de Saúde tal demora não se justificava uma vez que a quantidade de pessoas em espera não era assim tanta. Infelizmente é este o sistema Nacional de Saúde que temos.

É verdade que a saúde não tem preço...mas para que possamos tratar dela da melhor forma possível tem custos!

 

 

 

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