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Miss Messy

Miss Messy

O pesadelo de 13 de Agosto

 

O dia 13 de Agosto foi um dia muito quente. Tudo indicava que seria um dia perfeito para ter familiares e amigos a celebrar a vida, a amizade e a dar uns valentes mergulhos num belo almoço/jantar em casa dos meus pais em Ferreira do Zêzere.

Passava pouco das 18H quando começámos a sentir um cheiro intenso a queimado e consequentemente muito fumo a sair da serra. Liguei de imediato para o quartel dos Bombeiros para tentar perceber de onde vinha tanta fumarada. Na altura, foi me dito que havia um incêndio na aldeia do Beco - a cerca de 15Km do local onde estávamos - mas que, até ao momento, ainda não tinham qualquer outra informação.

A nossa reacção foi pegar em mangueiras, começar a molhar tudo à volta da casa e espalhar a notícia pelos restantes habitantes. Durante uma hora, o pensamento foi unânime: incêndios de Pedrogão. Foram tão marcantes, tão perturbadores que não se pensava noutra coisa e piorou quando as labaredas começaram a aparecer. O vento que se fazia sentir, em nada ajudava. Percebemos que o fogo estava completamente fora de controlo e que se dirigia para a nossa aldeia a todo o gás. Foi então que apareceram os carros da GNR a pedirem a evacuação imediata da aldeia instalando o pânico. O dia tão animado que estávamos a viver estava transformado num pesadelo. Num espaço de minutos, o incêndio cavalgou a serra de tal forma que só se avistava um mar vermelho rodeado pela escuridão da noite que já se fazia sentir. Uma imagem assustadora e arrepiante.

Os habitantes mais idosos não queriam deixar as suas casas com medo de perder tudo o que tinham e com receio de que ninguém pudesse olhar por elas na sua ausência. Felizmente, conseguimos convencer a grande maioria a sair, mas garanto-vos que não foi uma tarefa nada fácil.

Pegámos nos carros e fomos para a vila de Ferreira do Zêzere na esperança de que tudo se resolvesse o mais rapidamente possível. Infelizmente, o incêndio propagou de tal forma que atingiu a minha linda aldeia vestindo-a completamente de negro. Durante 2 dias não pude ir a casa, nem eu nem ninguém. "Dormi" no Centro Recriativo de Ferreira do Zêzere juntamente com todos aqueles que foram evacuados das suas casas sem saberem o que restava delas.

Foram momentos muito tristes onde me senti completamente impotente. Queria ajudar os bombeiros de alguma forma mas nada podia fazer.

Só dois dias depois, quando pudemos regressar à nossa aldeia e percebemos que felizmente a nossa casa e a dos restantes habitantes estava a salvo, é que conseguimos respirar de "alívio". Os bombeiros continuaram incansáveis a vigiar a zona, sempre prestáveis e atentos aos reacendimentos. O mínimo que pudemos fazer foi levar-lhes água e comida de X em X horas mas em momentos como estes sentimos sempre que é tão pouco...

Passou exactamente 1 mês e 4 dias desde que tudo isto aconteceu, desde que vivenciei este horror que em nada se compara com tudo o que aconteceu no passado Domingo nem com o sucedido em Pedrogão.

O ano de 2017 ficará para sempre mascarrado de cinza no coração de todos nós que, de alguma forma, passando ou não por momentos de agonia, sentimos o pesar e a tristeza de todos aqueles que perderam tudo...

 

 

 

 

 

 

Apelo ao Calor

 

Querido calor,

 

Escrevo-te com profunda tristeza porque no fundo, sei que a culpa não é tua mas tenho de te pedir que vás embora. Sempre ansiei com a tua chegada e sempre desejei que ficasses o máximo de tempo possível por este nosso querido país à beira mar plantado, mas hoje, percebi que este país não tem capacidade para que cá fiques por muito tempo - na verdade, começo a achar que não tem capacidade para nada.

 Bem sei que a culpa não é só tua e que a mão criminosa que por aí anda se apodera do teu maior esplendor para mergulhar o nosso pequeno Portugal em chamas, mas por isso é que te peço que vás embora. Somos pequeninos, mas o teu calor - ou quem se aproveita dele - tem-nos trazido tragédias muito grandes. Pede à tua amiga chuva que venha e descarregue sobre o nosso continente a tão preciosa água de que precisamos para apagar estes incêndios e alimentar esta nossa terra já tão seca e desnutrida.

Vou sentir a tua falta, mas preciso mesmo que vás. Quando apareces em força, os desastres acontecem e o nosso governo não sabe como lidar com isso. Não sabe ou não quer saber. Ou investe onde não deve. Não sei. Não me apetece falar sobre isso, porque me revolta.

Espero que esta carta seja uma despedida e que amanhã já não estejas por cá.

Não fiques triste, voltaremos a ver-nos para o ano caso a Administração Interna já tenha capacidade de Liderança e o SIRESP se tenha modernizado - entre outras tantas coisas de que precisamos para te voltar a ver. Se até lá continuar tudo como está então não apareças no teu esplendor. Vai espreitando, mas nada mais do que isso.

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